Capítulo 2 O Que o Passado Guardou
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CAPÍTULO 2
O Que o Passado Guardou
— ◆ —
Havia uma doença que Bae Jun-ho carregava desde criança.
Não era visível. Não era aquele tipo de fraqueza que aparece no rosto ou dobra os joelhos em público. Era silenciosa — uma falha no coração que se manifestava em crises raras, violentas e imprevisíveis.
Kang Dae-ho foi o primeiro a notar os sinais. A palidez nas têmporas antes das audiências. A mão que apertava o peito depois de longas cavalgadas. A respiração que ficava curta quando ninguém deveria estar olhando. Ele sabia disso porque esteve ao lado do general por anos. E sabia também que apenas uma pessoa conseguia tratar aquelas crises — apenas um par de mãos que conhecia os pontos exatos onde as agulhas yin yang deviam pousar para acalmar o que os médicos comuns nem conseguiam nomear.
Jin Hae-won.
Quando o massacre aconteceu e ela desapareceu, ele aprendeu a viver com o risco. Tornou-se general. Tornou-se imperador. E carregou a doença em silêncio — porque nenhum imperador pode ser fraco. Nenhum imperador pode ser vulnerável.
Mas o corpo não mente para sempre.
— ◆ —
A Crise
Poucos dias antes da cerimônia de coroação, Jun-ho desabou.
A crise veio de noite, sem aviso. O peito fechou. A visão escureceu. O médico imperial foi chamado às pressas — e Hae-won, que ainda vivia no palácio como primeira esposa, reparou na movimentação fora do quarto imperial. Passos rápidos demais. Vozes baixas demais. O tipo de silêncio que só acontece quando algo está muito errado.
Ela se aproximou da porta entreaberta e ouviu.
— É uma doença antiga, mal curada — disse o médico imperial, a voz pesada de quem está prestes a admitir uma derrota. — Não há nada que eu possa fazer. Apenas quem domina a técnica das agulhas yin yang poderia tratar uma crise nesse estágio.
An Ji-min já havia deixado o quarto com alguma desculpa. Ela sabia que seria desmascarada se tentasse — e preferia fugir a ser exposta.
Hae-won ficou parada na soleira por um segundo. Depois entrou.
— Eu consigo — disse ela, com a voz calma de quem não está pedindo permissão.
Todos no quarto se viraram. Até aquele momento, ninguém sabia que ela era a verdadeira Jin Hae-won. Ela era apenas a primeira esposa — aquela que ninguém havia escolhido de verdade.
Kang Dae-ho a olhou por um longo instante. Olhou para o imperador inconsciente. Olhou para o médico que acabara de confessar sua impotência. E se afastou da porta.
— Façam o que ela mandar.
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Hae-won trabalhou a noite toda — aplicando as agulhas nos pontos que só ela conhecia, preparando o chá de ginseng que o guarda foi buscar em seguida. O ginseng era raro e difícil de encontrar. Kang Dae-ho saiu antes do amanhecer e não voltaria tão cedo.
Quando Jun-ho começou a respirar com regularidade, Hae-won se levantou aliviada e foi à cozinha imperial preparar os últimos remédios.
Ela não viu An Ji-min entrar.
Quando voltou com o medicamento — feliz, com o coração levemente aquecido pela esperança de que ele acordaria e saberia que era ela quem havia ficado ao seu lado — encontrou Jun-ho com os olhos abertos.
E An Ji-min sentada ao lado dele, com um sorriso macio e calculado nos lábios.
Hae-won deu um passo em direção ao leito. Jun-ho a olhou. E a expulsou sem permitir explicações.
— ◆ —
A Cerimônia
A cerimônia de coroação aconteceu dois dias depois.
O grande salão do palácio estava cheio — magistrados, generais, famílias nobres, servos enfileirados nas laterais. An Ji-min estava à frente, ao lado do imperador, vestida de vermelho e ouro, a bolsinha yin yang escondida dentro da manga.
A cerimônia mal havia começado quando foi interrompida.
Seu nome era Park Bok-soon — uma jovem humilde que trabalhava na mansão de Jun-ho desde o dia em que Hae-won chegou, forçada ao casamento. Ela havia visto tudo desde o primeiro dia. Havia ficado em silêncio por medo.
Mas naquele dia em que Jun-ho forçou Hae-won a tomar o remédio para abortar, Park Bok-soon viu sua senhora dobrada de dor no chão do quarto. E algo dentro dela se quebrou de vez.
Ela atravessou o palácio a pé. Entrou no salão no meio da cerimônia. E gritou.
— ◆ —
O silêncio que se seguiu foi diferente de qualquer silêncio que aquele salão havia conhecido.
Os guardas avançaram. Jun-ho ergueu a mão — um gesto único, seco — e eles pararam.
— Fale — disse ele, a voz fria como pedra.
Park Bok-soon não tremeu. Havia chegado longe demais para tremer agora.
Contou tudo. As humilhações que Hae-won sofreu desde o primeiro dia. A noite em que Yoon So-ri usou a cegueira de Hae-won para fazê-la parecer culpada. E então — o detalhe que nenhuma mentira poderia apagar.
An Ji-min, encurralada, ergueu a bolsinha yin yang que havia roubado de Hae-won durante a confusão.
— Está aqui — disse ela, com um sorriso controlado. — A prova de que sou eu.
Mas ao ver aquela bolsinha, a memória de Park Bok-soon veio clara como água.
— Nos primeiros dias na casa do general — disse a serva, com a voz firme de quem guarda memórias como relíquias — minha senhora ainda estava cega. A bolsinha das agulhas sumiu. E ela, sem enxergar nada, tateou o chão inteiro. Perguntou a cada servo, descrevendo cada detalhe. Estava desesperada como alguém que perdeu o que tinha de mais precioso no mundo. — Ela apontou. — Tenho certeza. É essa bolsinha. É idêntica.
Foi quando a porta do salão se abriu.
Kang Dae-ho entrou — empoeirado de dias de viagem, o ginseng nas mãos. Parou ao ver a cena. Olhou para o imperador.
— Majestade. — Sua voz era cautelosa. — Trouxe o ginseng que a doutora Jin ordenou para completar seu tratamento. Ela disse que era essencial.
O salão ficou em silêncio absoluto.
Jun-ho olhou para o guarda. Depois para An Ji-min. Depois para a bolsinha. Havia algo nos olhos dele que não era mais fúria — era a compreensão gelada de quem entende, de uma vez por todas, o tamanho do que foi feito.
— Quem me tratou? — perguntou ele, a voz baixíssima.
— A doutora Jin Hae-won, Majestade. Eu mesmo a trouxe. A deixei cuidando do senhor enquanto buscava o ginseng. Por ser muito raro, não foi fácil encontrar. Por isso demorei. — Kang Dae-ho curvou a cabeça. — Perdão, senhor.
An Ji-min abriu a boca. Jun-ho não deixou que falasse.
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O Fim da Mentira
A família An foi presa naquela tarde.
No dia seguinte, ao meio-dia, o decreto foi lido em praça pública — a inocência da família de Jin Hae-won, restaurada. Os crimes da família An, expostos em cada detalhe. E a sentença: decapitação de todos, incluindo An Ji-min, que ouviu o decreto de joelhos sem derramar uma lágrima.
Ela morreu como havia vivido — calculando até o último segundo, sem encontrar saída.
Yoon So-ri não chegou a ser julgada. An Ji-min a havia matado meses antes, quando descobriu que ela havia tentado usar o plano do veneno para si mesma. Se não era aliada, era obstáculo. E An Ji-min nunca deixou obstáculos para trás.
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A Busca
Jun-ho foi imediatamente ao encontro de Hae-won.
Ela o aguardava como alguém que tinha certeza de que ele viria — com o olhar vazio, a alma despedaçada e uma decisão tomada.
Quando ele chegou e estendeu a mão, ela se afastou.
Não havia nada que ele pudesse dizer naquele momento que fosse grande o suficiente para o tamanho do que havia sido perdido. E ela não estava pronta para ouvir.
Ela foi embora.
E ele passou dois anos indo atrás dela — todos os dias, até o mosteiro do Vale das Águas — sem desistir.
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